BATE PAPO COM O LEITOR – UMA GRANDE PINTORA – ELMA – ANO 2.003

big_MARIO.NATAL 2009


Olha só… Numa dessas grandes reformas que os computadores fazem com a gente descobri uma carta que uma pintora me escreveu há treze anos. Mantínhamos uma correspondência sobre pintura e ela, a Elma comentou sobre dois dos meus quadros: A FLORESTA, hoje acervo da Dra. Luci Mattar em Bauru e O PORTO DE BRAGANÇA, morando em Porto de Galinhas com Luiz Marcos Abrão. Respondi naquele tempo e hoje com mais experiência e perguntas novas respondo de novo. Espero que esta carta chegue a ela uma vez que não falamos há muitos anos.
Como a gente passa…
Abraços.

“Mario

Sobre a pintura Naif

A diferença de primitivo e naif é sutil.

Os primitivos fazem uma pintura fora dos padrões de uso da perspectiva, luz e sombra. Já os naifs fazem uso desse recurso. Os naifs nem sempre são amadores e algumas vezes pintores sofisticados podem simular este estilo. Ambos são anarquistas, completamente livres de tendências, trabalham sem seguir regras. São guiados pela intuição.

A Arte Naïf é um estilo de pintura. Você pode ser médico, dentista, gari, empregada doméstica; e você vai pintar naquele estilo reconhecível – isso é pintura Naïf, Mario.


Bem, mudando de assunto, quando  quis saber das datas em que você pintou “A Floresta” e “Porto de Bragança”, fiquei surpresa com a resposta, porque pensei as datas ao contrário! Sabe por quê?
“Porto de Bragança” me pareceu ser feito anteriormente devido ao estilo usado:  quase uma arte ingênua ou naif devido as características e do clima da paisagem.  Este quadro tem tudo da pintura naif. As casas  e as palmeiras simetricamente colocadas, possuindo pouca perspectiva e também pude sentir a sua dificuldade em questão ao reflexo  delas na água. Foi onde realmente percebi que o que faltou ali foi o contraste da côr dos elementos refletidos na água.

É uma arte pura e tem a sua beleza. Nota-se que as cores não são puras e sim trabalhadas demonstrando sua intimidade com elas. Daí a diferença da arte primitiva com a Naif.


Isto não significa retroagir, pode ser um novo caminho encontrado.
Agora coloco aqui um parecer filosófico sobre a arte não figurativa, (quando ela é criada),  vem da liberdade de fazer arte. Como em a “Floresta”  onde  você não se sentiu preso à Uma  imagem  determinada,  à  uma representação  idêntica de  algo já existente. Ali você CRIOU. Aquelas formas, aquele emaranhado de elementos parecendo algo orgânico, você me fez sentir o mistério que uma floresta contém. Uma mistura de  texturas, como se fossem folhas mortas prensadas pelo tempo. Vejo ali caminhos  como se fossem  trilhas feitas por formigas ou formadas pelo correr da água da chuva. 


Um amontoado de folhas e galhos, se decompondo para formar sustento a uma nova vida seja ela uma árvore, à recompor a natureza a dar continuação à vida. Viu como a “Floresta” transcende? É o abstrato que dá liberdade também ao observador de fazer sua própria leitura e sua própria viagem. 


Agora, por certo você vai entender porque fiquei surpresa com a data dessas pinturas. Cada uma tem um estilo.
Agora… se o reflexo que você quis dar em “Porto de Bragança” fosse algo criado, sem a interferência do visível, do figurativo, com certeza sua tela tomaria  outro rumo e se transformaria  num pensamento universal.

Mario, tudo muito belo. Amei todas as telas de seu álbum.
Já está preparado, escolha seu estilo e vamos em frente. Você desenvolve bem formas, cores e o principal… Você ama o que faz! Tanto na literatura quanto na pintura.

Por que será que todo pintor tem algo de escritor e todo escritor tem algo de  pintor?

Estou rindo de mim.

Tadinha… Gosto de escrever sem pretensões, e nem sei fazê-lo direito.  Tenho muitos erros e você vai desculpando as minhas mau-traçadas linhas,

Beijos

Elma”

MARIO

Elma você escreveu esta carta em 2.003. Veja como passamos pelo tempo. Nossa. E veio um apocalipse no micro que consumiu o seu e-mail original. E muito mais.  Mas eu o havia copiado. Recentemente outra revolução aconteceu para pôr certa ordem na útil desordem de tudo que rolou pelo meu pobre PC e te achei envolta em letras de novo. Que experiência agradável. Lembro-me que respondi na época. Hoje lendo após uma década dos conceitos expressos por você quero dar uma resposta mais madura; só que sei que não sei onde você anda!

Para onde enviar o escrito? Perdemo-nos.

…Você acertou. Meus sentimentos quando pintei O PORTO DE BRAGANÇA eram de insatisfação com o só copiar algo e fazer de conta que não era uma cópia. O jeitinho difícil do fingimento/arte. A coisa já estava feita e porque o esforço de retratá-la usando tinta e tela? No Porto de Bragança fiquei muito tempo procurando acertar as sombras refletidas no mar e – confesso –, me irritei um pouco com a fila de palmeiras em ordem demais da conta no quadro. Hoje eu tiraria as palmeiras do novo porto.

Mas gostei muito do Porto de Bragança! Uma boa experiência.

A vida criada precisa ser reinterpretada, reescrita revelando uma dimensão próxima e procurando ensinar a nós mesmos um fator que vamos chamar de espiritual. Ele é um pouco mais de vida… ou do pensamento e daí então pintá-lo ou escrevê-lo

Tinta, tela e espírito, Elma! Tinta, letras e espírito. Por isso pintar e escrever gozam de uma bonita parecença.

Na FLORESTA eu não procurei reproduzi-la. Eu queria “pegar”, intuir o espírito dela! Como você mencionou, eu desejava conhecer os segredos da grande floresta com pinceladas mais livres e espontâneas. O espontâneo, Elma é sempre possível e uma dimensão do simples.
Elma você escreveu umas das frases mais importantes que ouvi nesses anos.


“Viu como a ‘Floresta’ transcende? É o abstrato que dá liberdade também ao observador de fazer sua própria leitura e sua própria viagem.”


O grande Paulo de Tarso ensinava aos seus amigos em Filipos, a ponta de lança do império romano chegando a Macedônia que “tudo que for verdadeiro, tudo que for nobre tudo que for correto, tudo que for puro, tudo que for amável, tudo que for de boa fama e; se houver algo excelente ou digno de louvor, seja isso que ocupe as mentes de vocês.”
Viu? Para ele também a função, o conceito vinha antes enfeixado na palavra TUDO e depois se consubstanciava em atos nos relacionamentos coerentes com a importância que ele via no indivíduo… O Paulo amava a arte das pinturas de vida!   


Bem, Elma. Agora vou ver se te acho em uma dessas curvas do caminho para esta segunda resposta às suas vívidas e hábeis observações depois de treze anos. Acredite Elma, elas são eternas…
Um grande abraço e muito obrigado de novo.
Mario

A FLORESTA é a capa do meu terceiro livro de contos, CONTOS MITOS E PARALELEPÍPEDOS. 

FOTO-CAPA CONTOS LIVRO 3

Quadro_Mario.Floresta.Surealista

   

Quadro_Mario. Porto de Bragança.2.005.Fase.3

 

Acima A Floresta e abaixo O Porto de Bragança motivos do ótimo papo com a Elma.

 

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